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Arrependimento: O Dom Mais Precioso

Não há nada mais importante do que encontrar o caminho para o arrependimento, pois ele traz vida e bem-aventurança. O primeiro passo neste caminho é o reconhecimento de que me falta o arrependimento. Este reconhecimento é básico; porque é um fato que, desde a queda no pecado, coisa alguma nos falta mais do que esta: o arrependimento.

Feito este primeiro passo que me levou, ao menos a reconhecer: Falta-me o arrependimento - chegarei, em seguida, a um segundo reconhecimento, a saber, que não posso dar-me o arrependimento a mim mesmo; porque ninguém é capaz de transformar meu coração endurecido em um coração brando e quebrantado que possa chorar por seu pecado. É preciso, para isso, haver uma dádiva de graça, um presente do céu, se desejarmos que isso se efetue em nós, visto faltar-nos para isto toda e qualquer condição.

O arrependimento não cai do céu qual chuva de graças, não só deve ser buscado por fé e oração, mas é concedido no caminho de provações e sofrimentos muitas vezes bem amargos. Mas vale a pena trilhar por este caminho, e felizes de nós, se não hesitarmos em segui-lo, porque disso resultará fruto precioso.

É inimaginável e por isso quase não podemos compreender o quanto brota do arrependimento e da contrição em termos de vida nova e divina! Toda a verdadeira alegria e bem-aventurança em nossa vida e todo nosso poder no trabalho pelo reino de Deus dependem de estarmos sob a graça do arrependimento, de sempre, e repetidamente, pertencermos àqueles que podem chorar seu pecado e humilhar-se sob sua culpa diante de Deus e das pessoas.

 Os Principais Obstáculos para Chegarmos ao Arrependimento

1. Falta de arrependimento, por causa da justiça própria e soberba

O primeiro obstáculo que tanto dificulta o acesso ao arrependimento é nossa própria justiça ou auto-justificação. Para tudo temos uma desculpa e por isso não vemos motivo algum para nos arrepender e nos corrigir, porque se na verdade temos razão e podemos desculpar-nos com razão, ou seja, recusar de nós a culpabilidade - por que deveríamos sentir arrependimento?

Jesus, porém, se opõe a toda e qualquer tentativa de desculpar-se e a submete ao Seu julgamento - o juízo mais severo com que Ele sempre ameaça os que se consideram justos, como foram no Seu tempo os fariseus. Pois, ainda que estes observassem a Palavra de Deus, tomando-a aparentemente tão a sério e zelando pela doutrina pura e orando muito, eles foram atingidos pelo Seu "Ai de vós"! Não obstante a sua religiosidade, permaneceu-lhes fechado o reino dos céus. Eles não aceitaram a pregação do arrependimento. Nossa salvação depende disso: Atendermos a este chamado ao arrependimento; porque não é o conhecimento de Jesus que nos abrirá um dia o céu, mas que verdadeiramente estejamos prostrados a Seus pés como pecadores com os corações quebrantados e que assim cheguemos repetidamente à Sua cruz.

Quão rapidamente se rejeitam os juízos de pessoas e se lança a culpa sobre o outro que sempre acha algo a criticar, e que nunca está satisfeito conosco e que não nos compreende. Contudo, se não somos capazes de aceitar correções dos outros, é porque somos soberbos. O humilde aceita o que se lhe diz, tem a coragem de ouvir a verdade a respeito de si e admitir: É isso mesmo, devo arrepender-me, e neste ponto algo deveria mudar em mim, sejam coisas menores ou maiores. Jesus chama este desculpar-se "ver o cisco no olho do irmão e não reparar na viga no seu próprio olho", porque desculpando-me diminuo a minha própria culpa e acuso o outro de me ter repreendido injustamente. Em sua soberba, portanto, o homem se desculpa de contínuo e, não chegando a arrepender-se, também não acha o caminho de volta. Então o pecado não confessado lhe barra o acesso a Jesus. Não é o pecado em si, mas o pecado não confessado, pecado do qual nós não nos arrependemos, que separa de Deus e faz com que no além nos espere o juízo divino.

O que precisa ser normal é que nossa vida seja caracterizada por arrependimento e contrição sempre novos. O primeiro lugar, portanto, deveria ocupar na vida dos fiéis o arrependimento de sua auto-suficiência e daquela tentativa de se desculpar. Deveríamos começar, na vida do dia-a-dia, a reconhecer quando nosso próximo tem queixas contra nós, e atender nossa consciência que nos exorta com voz baixinha de não fugir nem logo abafá-la à força, por todas as desculpas possíveis. Até deveríamos declarar guerra a toda e qualquer compaixão e desculpa conosco mesmos, porque isto nos leva, conforme as palavras freqüentes de Jesus nos Evangelhos, diretamente ao inferno. Por toda palavra de escusa e por cada pensamento, por mais levemente que nos invade para livrar-nos da culpa, deveríamos começar a arrepender-nos, ou seja, cair em nós, voltar-nos e distanciar-nos disso. Então o Senhor, por causa de nossas orações e de Sua redenção consumada que nos redimiu desse espírito de auto-justificação.Assim nosso coração se tornará pleno de alegria, de vida e de amor.
 

2. Não há arrependimento, porque não reconhecemos em todas as correções o chamado de Deus à contrição

Que outras razões há para que nós, os "crentes", tão dificilmente achemos o caminho para o arrependimento? Além da nossa justiça própria ainda há outra razão especial: Não estamos mais acostumados a reconhecer todos os acontecimentos da nossa vida, como também todas as aflições, em relação com a vontade de Deus e com Seu falar. Deus para nós não é mais o Deus vivo, de modo que somos incapazes de imaginar que não cai nenhum cabelo de nossa cabeça sem a Sua vontade, e que, portanto, o mínimo evento tenha algo a ver com o efeito do Seu querer.

E, não obstante, é assim que nos diz a Bíblia: Se Deus nos disciplina, se Ele intervém em nossas vidas com tribulações e aflições, Ele o faz para que sejamos participantes da Sua Santidade (Hebreus 12.10). Ou seja, quando Ele nos conduz por correções ou sofrimentos, Ele censura algo que quer afastar, algo de que pretende nos purificar. Atrás de todos os caminhos de aflição está a mão disciplinadora de Deus, está o Seu plano de amor para conosco que visa corrigir-nos. E Ele fala conosco por meio destes eventos: Isto ou aquilo deve mudar em nossas vidas.

Quando, porém, resistimos a Deus e não chegamos ao arrependimento por caminhos aflitivos, mas até talvez continuemos em nossas acusações que Deus nos guia por caminhos tão difíceis, então nós mesmos obstruímos para nós a graça de sermos, por meio de sofrimentos, semelhantes à Sua imagem e, assim, abençoados abundantemente. Porque Deus não nos entristece e corrige "com gosto", mas apenas para conseguir Seu objetivo em nós. Mas, quantas dificuldades Lhe causamos por meio da nossa resistência, não querendo humilhar-nos e concordar que o merecemos, mas em vez disso dizendo: Com o que justamente eu mereci isso?

Assim ficamos presos em nossa tribulação, também nas tribulações maiores, quando Deus nos conduz por caminhos difíceis de sofrimentos e correções, e não compreendemos o verdadeiro objetivo que Deus tem em mente. Talvez, entre nós, "crentes", o máximo seja que deixamos de acusá-lO, dizendo: "Deus assim o quer" e, enfim, chegamos a dizer Sim, mesmo a contragosto. Mas também os muçulmanos dizem: "Alá o quer" - porém não sabem de uma coisa: que Deus é um Pai que nos educa como Seus filhos. Assim nos corrige porque espera que nos arrependamos de algo, assim como um pai quer alcançar pela correção que o filho lamente ter ofendido a ele ou seus irmãos, e volte-se deste caminho errado.

Aí está o problema entre nós, "crentes": Não estamos mais acostumados a ver nas correções a mão de Deus que atua em nós pessoalmente, por tão pouco considerarmos a Deus nosso Pai. Perdemos totalmente a capacidade de reconhecer nas correções Seu falar e Seu esperar pelo arrependimento. Por essa razão, chegamos tão pouco a arrepender-nos, a compungir-nos na vida do dia-a-dia, objetivo este para o qual nos querem levar as correções de Deus. Somente conhecemos o arrependimento em caso de algum pecado grave. Mas este não é tão freqüente entre os piedosos, ao menos assim achamos. E o pecado gravíssimo que temos em nós, sobre o qual Deus pronuncia Sua palavra de juízo severo, a saber: o julgar e condenar os outros e elevar-nos acima dos outros - isso não consideramos pecado grave, conseqüentemente não somos impelidos ao arrependimento. Justamente as correções, porém, deveriam ajudar-nos em face da santidade de Deus, a tomar a sério o pecado - especialmente o pecado banalizado.

 3. Falta arrependimento, porque não tomamos a norma da Palavra de Deus como sendo compromissiva para nossa vida.

Ainda em outro aspecto há uma questão decisiva se o caminho para o arrependimento será preparado ou barrado. A questão é essa: Qual a norma que sigo em minha vida? Se nos contentamos com o critério: Eu não matei, não furtei, fiz minhas orações e santifiquei o dia do Senhor, neste caso, naturalmente, será difícil chegar ao arrependimento e à contrição. "Se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, (estes cumpriram os dez mandamentos e, aparentemente, levavam uma vida moralmente boa e piedosa), jamais entrareis no reino dos céus" (Mateus 5.20).

Nosso Senhor Jesus, portanto, segue outro critério ao dizer: Quem se irar contra seu irmão, estará sujeito ao julgamento. Exige de nós, quando pretendemos ir ao culto, que só o façamos após nos termos reconciliado antes com o irmão, não só no caso de sermos seu devedor, mas bastando ouvirmos que ele tem algo contra nós e que há uma barreira entre nós e o irmão.

Que norma elevada Jesus, pois, adota para os Seus: a norma do amor ao inimigo! E quem a cumpre à risca? Creio que a maioria de nós lida com pessoas, seja na família, seja no trabalho ou na vizinhança, pessoas que nos causam problemas e dificuldades. Como costumamos reagir neste caso? Porventura está dominando em nós o amor compassivo, o amor ao inimigo, ou nutrimos pensamentos e palavras condenatórios, litigiosos, amargos, para com aqueles que assim no-lo fazem também? Jesus registra tudo isso como dívida e diz que então estaremos sujeitos ao julgamento.

Por isso nossa contrição deveria começar a partir do fato de que não tomamos mais a sério a Palavra de Deus e que por essa razão não chegamos a arrepender-nos e que nos atrevemos a implantar nossas próprias normas, contentando-nos em cumprir esse mínimo.